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Bem estar | 31/05/2016 - Ansiedade

A ansiedade é uma companheira inevitável. Sei lá se é mesmo um fenômeno típico desses dias ultravelozes que vivemos ou se sempre foi assim. Minha aposta é que a ansiedade é um traço humano. Uma resposta natural ao fato cruel de que a vida da gente é curta e passa rápido. Sempre foi assim e sempre será: homenzinhos como você e eu correndo contra o tempo, em direção ao fim.
Então não importa se a vida ao redor é mais lenta, como era no século 18, quando vivíamos 35 anos, ou se é frenética, como tem sido da década de 1990 para cá, com expectativa de existirmos 90 anos. O problema é o dínamo antimorte que carregamos no peito, e que nos joga à frente, e nos acelera, em louca cavalgada.
A resposta típica do século 21 a esta insuportável certeza de que não vamos existir por muito mais tempo é pisar fundo no acelerador. O sujeito anda a 180 km/h, fazendo tudo ao mesmo tempo, fundindo seu motor, e ainda assim tem crises de consciência por estar avançando pouco, assolado pelo constante sentimento de culpa de estar fazendo sempre menos do que aquilo que imagina que seria seu dever.
A ansiedade é um negócio tão brabo que detona o sujeito tanto pela velocidade, quando ele começa a se desintegrar em pleno voo, quanto pela apatia, quanto a pessoa está aparentemente tranquila, sem nenhum incêndio para apagar, sem nenhuma grande responsabilidade a cumprir, e sente sorrateiramente o coração descarrilhar. Tudo que a gente quer é parar. Mas quando para, não aguenta a estagnação, e é avassalado pelo sentimento de que está ficando para trás enquanto o mundo continua girando, histérico, para o alto e avante.
Quando reduzir a marcha, curtir a paisagem, jogar conversa fora, dar a si mesmo e a tudo ao redor o tempo devido se tornarem práticas insuportáveis, saiba que isso é apenas a ansiedade operando sua influência funesta sobre você.
Um ponto central da ansiedade, para quem é ansioso como eu, é a sanha de controlar as coisas. O sujeito controlador é um ansioso crítico e um ansioso crônico. Deveria ser apresentado nas escolas primárias como exemplo às crianças do que não fazer. (Eis-me aqui um candidato!)
O controlador quer pôr ordem no mundo, nas coisas, nas pessoas. Uma ordem estática, perfeita, que não existe na natureza e nem em lugar algum. Mas que fica queimando na cabeça e no estômago do sujeito como se isso fosse pré-requisito para uma vida feliz. O ansioso é o sujeito que quer ter tudo sob controle. Nenhum risco, nenhum imprevisto, nada que não esteja absolutamente dominado.
Trata-se da mania de deixar todos os livros perfeitamente organizados na estante antes de dormir. Esse é um projeto impossível. Suicida. A vida é feita de centenas de prateleiras que nunca estarão prontas – inclusive porque elas amanhecem todo dia com novos livros enfiados entre os outros.
Tão importante quanto ter algum controle sobre os vá- rios escaninhos da nossa vida, de modo a poder organizá-los minimamente, é aprender a lidar com as surpresas, com a ausência de garantias e de certezas, com o quinhão de caos que nos orbita todos os dias, com o tremendo desconforto de saber que, no fundo, não temos controle sobre coisa alguma.
Pior do que notícia ruim é esperar por ela
Certa vez recebi uma má notícia no âmbito dos negócios. Não foi uma notíciapéssima. Mas foi uma notícia ruim. E tive uma sensação estranhamente agradável ao ver aquela situação definida. Ainda que o encaminhamento dela não fosse bom para mim, ter a questão finalizada gerou um sentimento muito melhor do que o que eu experimentara no momento anterior, de indefinição.
Eis o que quero dizer: a ansiedade é pior do que a notícia ruim. Esperar por um desfecho, e sofrer no vazio, na inconcretude de uma possibilidade de tragédia, é muito mais doído do que encarar a tragédia em si. O sofrimento da antecipação não tem tamanho. Ou melhor: adquire o tamanho da nossa ansiedade. Que nunca é pequena. Que quase sempre descamba para a hipérbole e para o paroxismo. Lidar com a coisa como ela é, mesmo quando o quadro não é bom, é uma batalha muito mais objetiva, clara e, portanto, melhor de ser enfrentada.
Não é a notícia ruim, o desfecho, que nos faz sofrer – o que machuca de verdade é a gastura ao longo do processo.
Ansiedade é pior que câncer
É ridículo, é estúpido, é cruel. Mas é verdade. A ansiedade é um processo doentio que pode fazer o sujeito sofrer mais do que uma doença física.
O ansioso não sofre com a realidade, mas com a expectativa. O ansioso se lastima menos com uma situação real, ainda que terrível, do que com a antecipação dessa situação, que ele sofre terrivelmente.
O ansioso prefere a falência do seu empreendimento, uma situação concreta para ele enfrentar, do que uma possibilidade de sucesso, de onde advêm toda sua angústia e sua insônia.
E qual é a primeira coisa que o ansioso fará, logo depois de resolvida uma situação que atiçava a sua ansiedade? Vai recusar o momento de relaxamento e procurar, ou engendrar, tão logo quanto possível, outra situação que lhe sirva de fonte de desassossego, para voltar a roer as unhas e produzir suco gástrico.
Mal atingem uma determinada meta, os ansiosos já se impõem um novo desafio. De preferência mais espinhoso e inexequível. Ou seja: já começam a sofrer de novo. Sofrimento non stop. Ansiosos são estoicos. Mais do que isso: são masoquistas.
Eis o que o ansioso não percebe: o sucesso não é uma meta, é um processo. Estamos sempre em movimento e o êxito não é senão continuar caminhando com alegria, esperança e serenidade em direção a ele. O sucesso não é um patamar fixo a ser alcançado – mas um movimento diário, em que a única coisa garantida é a necessidade de continuar em movimento, andando, um passo de cada vez, um tombo hoje, uma vitória amanhã.
Os ansiosos se esfalfam pelo caminho. Colocam toda a recompensa pessoal pelo sacrifício na linha de chegada. Não apreciam a frase, muitas vezes bonita, que vão escrevendo pela vida – estão sempre afogueados por cravar o ponto final na sentença, como se só ele importasse. Uma coisa maluca. Ansiosos aceleram tanto que se esquecem de apreciar a paisagem. De olho na bandeirada final, nem sabem direito por onde passaram. Sempre haverá lacunas em nossa trajetória. Espaços vazios a serem preenchidos só somem da vida da gente quando a vida da gente termina.
Mas o ansioso não reconhece o quanto já conquistou. Não celebra o tanto que caminhou. Está sempre em dívida consigo mesmo, se sentindo atrasado. A ansiedade cobre a visão do sujeito com uma névoa de pessimismo – ele passa a enxergar somente as tragédias possíveis, só o que pode não dar certo, e as decepções e rejeições que ele tem certeza que pontuarão seu caminho.
O ansioso é um escravo das expectativas que há sobre ele. Seja a que vem dos outros. Seja a que brota dele mesmo – aquela que ele imagina que os outros nutrem e que, assim, incorpora ferozmente à sua rotina. Dê muita responsabilidade a um ansioso crônico e você terá fabricado um depressivo. Deposite grandes expectativas num ansioso limítrofe e você terá criado um suicida em potencial.
Peraí… ansiosos são depressivos? Se uns sofrem por querer antecipar tudo e por acelerar até o limite, enquanto outros sofrem pela letargia diante da vida e pelo desgosto diante das oportunidades, eles não seriam diametralmente opostos?
Aprendi esses dias: o ansioso é um cara adrenalinérgico (nome oficial de quem vive se bombardeando com adrenalina). Só que uma hora o sujeito desaba com tanto hormônio. Funciona como uma espécie de botão de desligar do corpo, devastado pelas descargas químicas. De tanto ficar ligado, o sujeito cai em depressão. Como uma compensação do organismo, o sono letárgico depressivo vem como reação aos píncaros de atenção e de vigília para onde o sujeito se levou com a sua ansiedade.
Nessa perspectiva, a depressão não seria a tristeza absoluta, vinda do espaço sideral como um castigo cósmico aos muito melancólicos, mas como uma resposta do organismo a estados de alerta e de tensão elevadíssimos, sustentados por um tempo longo demais.
A ansiedade é o novo mal do século. Há psicólogos dizendo que quase todos os males psicológicos têm na base a ansiedade. Eis o nome completo da loba: ansiedade antecipatória. Algozes como depressão e crise do pânico seriam faces diferentes desse mau hábito da mente de olhar para o futuro e para a vida ao redor com a sanha de controlá-los, de imunizá-los, de ordená-los, de castrá-los, de securitizá-los.
A ansiedade antecipatória aflige dez entre dez pessoas, impactando-as com níveis diferentes de sofrimento psíquico. Vai desde quem dorme mal por conta de um compromisso no dia seguinte até quem desiste em definitivo da vida por sentir que não é mais possível suportar o grau de incertezas que ela impõe.
Os psicólogos ensinam alguns exercícios bacanas para quem quiser olhar esse bicho-cabeludo nos olhos – e enfrentá-lo. Exercícios que passam por mudanças no funcionamento do indivíduo no seu dia a dia. Sim, é possível vencer a ansiedade. Mas para deixar de sofrer você terá de estar disposto a alterar de verdade alguns hábitos. Porque a ansiedade advém do comportamento – e é lá que você precisa debelá-la.
Um dos pontos é focar no processo e não na falta. Trata-se de não jogar a satisfação somente na conclusão da tarefa, ou as alegrias apenas no atingimento de uma meta, mas obter prazer durante, e compreender que não há ponto final em nada que vivemos – tudo é fluxo.
Uma coisa conecta na outra, um evento se entrelaça ao próximo, pessoas e problemas e soluções estão sempre gerando interseções que se formam, e que desaparecem no momento seguinte, à medida que vamos vivendo. Então, só é possível ser feliz se percebermos esse movimento ininterrupto e decidirmos obter prazer no próprio processo. Ainda que muitas vezes ele pareça – e seja mesmo – um redemoinho.
O ansioso foca sempre no que ainda não está ganho e garantido. E essa conta será sempre negativa. Porque nada está ganho e nada está garantido. Daí o negativismo do ansioso, que só consegue ir adiante fazendo essa conta – e se desesperando diante das variáveis incontroláveis, e dos riscos inevitáveis, que sempre serão maiores do que as certezas.
O que ainda falta realizar representará sempre um campo maior do que aquilo que já foi realizado. Se esse for o parâmetro, estaremos fadados ao sentimento eterno de frustração – mesmo tendo construído obras magníficas por onde passamos.
A vida não é chegar, a vida é caminhar. Então curta o andar da carruagem, a grandeza da trajetória. Aprenda a extrair prazer e compensações do seu dia a dia. De que vale passar a vida toda agastado, sempre chutando a felicidade e a satisfação para o dia seguinte?

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